Eu quero ver
Sorver o verde
De verdade
Cheirar esta flor
Se esta floresta fôr
A cidade
Plástico no leite materno
Na placenta
Chuva não potável
Em todo o planeta
Em risco estão
As mais sagradas fontes
Do nosso alimento
Do ciclo da água
Ao leite que amamenta
Como a fauna e a flora
O sol, o ar, o vento
Não é futuro, é agora
Não é noutro continente
Não é lá fora, é aqui dentro
No corpo, no ventre
Doente como o organismo
[?] a que pertence
Apesar dos microplásticos
No peixe, nos cosméticos
Químicos eternos
Agro-toxicos sintéticos
Disruptores endócrinos
Dos corpos em ânsia
É irónico pensar que foi ganância
Eu quero ver
Absorver o verde
De verdade
Cheirar esta flor
Se esta floresta for
A cidade
Correr pelo prado
De pulmões abertos
Deitar-me no campo
De olhos despertos
E abraçar as núvens
Mesmo quando turvas
Poder mergulhar nos rios gelados
Nadar com os peixes pratados
Levada pela corrente
Lavada pela torrente
Eu quero ver
Sorver o verde
De verdade
Cheirar esta flor
Se esta floresta for
A cidade
Não é crise, é capitalismo
O fim da história é fake
Deixam este cataclismo
Chamam-nos de snowflakes
Puro comodismo e consumismo no scroll
Fartamos com o abismo informados por trolls
Não há utopias
Matamos as utopias
Só [?] e tecnocracia
Cumprimos a profecia
Nesta civilização
Suicida disposta a ganhar tostão
E a perder a vida
Sem pensar noutro sistema
Ou via alternativa
O telhado está a arder
E não buscamos a saída
Dançando o fim do mundo
Como se fosse uma festa
E se os putos gritam alto
Ainda franzimos a testa
Eu quero ver
Sorver o verde
De verdade
Cheirar esta flor
Se esta floresta for
A cidade
Ser livre, só
Só ser vivo, só
Só estar vivo, só
Ser bicho, sem
Sem luxo, sem
Sem lixo, só
Só ser livre
Só ser livre
Mesmo apertada na vida de apartamento
Ser livre
Mesmo apertada na vida de apartamento
Estar viva
Mesmo apertada na vida de apartamento
Ser livre
Mesmo apertada na vida de apartamento
Estar viva

