Sagrada Família Vol. 2
•
Faixa #12 • 4:40 •
Instrumental: Dillaz •

Letra de Anos 90

[Verso 1]

Boa música eram aqueles tempos

Gatos pingados todos arranhados na terra do vento

Num campo virado pa a serra a sentir o relento

Ou a descer uma ganda ravina em quatro rolamentos

Em aldeias não há caras diferentes

Toda a gente se conhece se não moras lá, tu tens lá parentes

No meio dessas pessoas sempre as pus impacientes

Eu vim de uma família grande

Eu sempre tive as costas quentes

Lá tou eu, anos 90, a vida é bela

No alcatrão descalço e de cabelo à tigela

Traquina com mais uns quantos em bikes fatelas

Ansioso e além da mão no bolso alguns 50 guelas

Velas eram acesas em alturas de apagão

Dava-me jeito eu adorava um apalpão

Aproveitava a deixa pra inventar uma à pressão

(ah ah puto assanhado tira lá daí a mão)

Mas tudo sem maldição

Tempos que só a saudade alimenta

E antes de dar com a testa na água benta

Como projecto aprovado a minha mãe fez-me em 90

E então fui pa uma terra onde se fez luz só em 70

Meu querido Zambujeiro

Sítio que no tempo tá parado

E como bruxas há lá velhas cuscas como em todo o lado

Malcriado, isso eu nunca fui

Ralham sem motivo mas deixa tar

Deixa lá falar é sinal que eu tou vivo

E as histórias que eu lá tive são contadas

Por pessoas que me viram andar de gatas

Continuam a ser os mesmos

Quer eu tenha muito ou nada

E há anos que me dão respeito

Pois sentem-se respeitadas

Pra esses um abraço

[Refrão]

E as lembranças vão voando

E as memórias também vão andando para trás

Mas algumas vão marcando

E vão ficando histórias boas e até histórias más

No sítio que nos viu crescer

Com sol ou a chover

Mas tu vê e repara aquilo que mudou

A diferença não é muita

Não é coisa absurda

Mas, meu puto, ao menos sei quem sou

[Verso 2]

Eu vi-me em tanta história que eu nem sei

Desde puto que o meu tico e teco nunca bateram bem

E era vestir uma roupa velha, pegar na fisga e ir po mato

Fazer o quê? fazer o quê?

Também não sei, eu era um rato

Corria tudo o que era lado

E já que não caçava nada

Acabava o bus amolgado

Motorista chateado

A gritar todo atiçado

Deixa chegar o carnaval vais ver se não ficas calado

Eu a fugir era um tornado

Na minha ginga toda artilhada

Uma garrafa na roda

Era de alta cilindrada

São lembranças mas enfim são outros tempos (são outros tempos)

Montar 20 ratoeiras p'a teres pássaros inocentes

Andamentos de criança sem pensar em cassetetes

Comer pastilhas, lavar dentes à pala dos cigarretes

Cheirar a fumo ao pé da cota zézinha

Tu nem te atreves

Até tinha a mão levezinha

Mas levavas uns tabefes

E agora

O mundo evoluiu, isso é normal

Vejo que o tempo vai mudando, meu puto

E nós igual

Agora que 'tamos juntos

A acender um palmo e meio

Trocamos bikes por carros

Já somos quase homens feitos

Há que manter o respeito por esta terra movediça

Que é o cheiro, a geada, a brisa

Manter a tradição do Zamba como no tempo dos nossos avós

Porque os cotas vão bazando e quem cá fica somos nós

[Refrão x3]

E as lembranças vão voando

E as memórias também vão andando para trás

Mas algumas vão marcando

E vão ficando histórias boas e até histórias más

No sítio que nos viu crescer

Com sol ou a chover

Mas tu vê e repara aquilo que mudou

A diferença não é muita

Não é coisa absurda

Mas, meu puto, ao menos sei quem sou

Índice